quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Contos Africanos: O menino de palha

O amor vem da África
      O respeito vem da mata
            Contos inspirados nas tribos raízes da cultura brasileira
Leila Miana



O menino de palha

Há muito tempo atrás, uma rainha Africana deu a luz a um menino muito feio, sua pele era toda revestida de micoses, com algumas manchas de cores variadas. Ele também não tinha nenhum pelo no corpo, não nascia nada, coitado. Não nascia cabelo nunca, carequinha... E o cheiro que ele tinha? Nossa! Sem explicação, esquisito que só... Ninguém entendia...

A rainha já muito aflita, queria uma solução e achou melhor levar a criança ao curandeiro de sua tribo. Ela esperava que ele fizesse algum tipo de magia e a única coisa que o sábio lhe disse foi:
- Se acalme minha senhora, este é o destino de seu filho. Tenha calma.

A mãe saiu enfurecida com o curandeiro. Ora bolas, como haveria de ter calma diante de tal situação? Como uma rainha poderia ter um filho tão feio, nojento e fedorento?
“Isto não poderia ser o certo”, pensava ela.

Resolveu por assim, que não iria criar aquela criança esquisita. Embrulhou o menino em um monte de palha e o colocou em um cesto. Foi para a beira do rio, pediu perdão e abandonou o filho na água corrente, que o levou para o mar.

E não é que lá na beira-mar, onde o rio encontra o oceano, uma linda mulher penteava seus longos cabelos com os pés na água. De repente o cesto veio e parou, assim, no calcanhar da moça.

O menino não chorou, pois tinha tanto medo que a voz não saia. A moça não se assustou. Agradeceu o presente que veio no rio. Levantou e pegou o cesto em seus braços, pôs-se a caminhar até sua vila.

Em sua cabana, a moça abriu o manto de palha e não se assustou com o que viu. As doenças da criança não a incomodavam e ela sorriu para o neném.

Preparou uma bacia de água morna e começou a banhar o filho que o rio lhe deu. Recolheu algumas ervas e preparou uma pasta para cuidar de suas feridas. Das frutas e sementes da floresta, passou a alimentar o menino, que lhe sorriu.

Muitos anos se passaram, mas o menino continuava a sofrer, não conseguia esquecer os maus tratos daquela mãe que o jogou no rio, tinha vergonha de ser quem era e só queria ficar escondido.

A senhora que cuidou dele durante toda sua vida insistia:
- Vamos meu filho, vamos passear.
- Não, não vou. Nada me tira dessa cabana. Quando as pessoas me olharem, vão rir de mim, eu sinto.
- Deixe de bobeira, meu filho. A beleza é interior!

        Um dia chegou um convite especial: era para o festival de fim de ano de todas as comunidades e para todos africanos. Por isso todos deveriam participar desta grande celebração.

Mas como a mãe adotiva iria convencer o menino a ir?
- Já sei! Vou fazer uma roupa toda de palha, que lhe cubra ate o rosto. Assim você poderá festejar o fim de ano com todos nós! E não sentirá vergonha de ser quem é.

Chegando na festa, logo se animaram. Tudo estava lindo: lindos cantos, muitos tambores, muita comida, bebida, luzes e alegria! Todos estavam dançando em uma grande roda.

Não tardou e a senhora logo se empolgou, entrando na grande roda para se divertir. O menino, muito tímido, queria só ficar de canto, escondido.

Não demorou muito e uma bela moça chegou e o puxou pelo braço para participar da roda. A moça rodopiava, balançava, ventava, mas não largava a mão dele. Todos na roda sorriam e recebiam o menino de palha sem se importar em como ele estava vestido, em como ele era, tudo que importava ali era ser feliz.

E feliz estava, cada vez mais. A felicidade lhe invadia o peito e se espalhava como uma luz dourada por todo seu corpo. Todos ali eram amigos, aparências não importavam e quanto mais felizes, mais dançavam, mais ventavam.

E o vento, aos poucos, foi levando a palha embora. Bem devagar, foi surgindo o corpo de um rapaz e todos iriam conhecer o seu sorriso. Aos poucos, todos foram conhecendo sua beleza. Lentamente, o menino (que agora já era um rapaz) foi compreendendo tudo.

Já não era feio e doente há muitos anos. O amor incondicional daquela senhora já havia lhe curado e lhe ensinado que por amor e com amor o caminho se torna mais suave.


O menino já havia compreendido que as diferenças entre as pessoas não devem abalar o espírito de equipe. O menino aprendeu que dificuldades podem ser superadas pela força do amor.

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