segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Contos Africanos: O caçador de uma flecha só

O amor vem da África
      O respeito vem da mata
            Contos inspirados nas tribos raízes da cultura brasileira
Leila Miana


O caçador de uma flecha só

Era uma tribo onde tudo se festejava. O rei adorava comemorar todos os bons acontecimentos da região. Tudo era motivo de alegria. Mudou o ano? Festa! Nasceu criança? Festa! Sacrificou um animal? Festa! Hora da colheita? Mais festa!

Aliás, a festa da Colheita era a mais importante e divertida de todas as festas africanas. Era um dia especial, em que eles colhiam todos os alimentos que iriam ser estocados até o ano seguinte. Era a consagração de um ano proveitoso e a esperança desta continuidade...

A Festa da Colheita era anunciada para a comunidade há apenas dois dias antes de acontecer, pois os agricultores esperavam o momento certo para colher os alimentos. Naquele tempo, naquela tribo, as verduras, legumes e frutas ficavam no ponto certo de colher ao mesmo tempo, no mesmo dia. Que era o dia em que anunciavam que poderia ter festa!

Enviavam mensageiros a todos os cantos anunciando que o dia havia chegado! Eles iam até as cabanas que ficavam próximas e nas distantes também, nas da beira do rio e de dentro da floresta, nos altos dos morros e nas profundezas dos vales.

Iam à cabana de todos os moradores, exceto de um, o feiticeiro que morava no pântano. Todos morriam de medo do velho feiticeiro e sempre arrumavam uma desculpa para passar longe da cabana daquele homem.

O rei mandava avisar a todos moradores, TODOS, mas nenhum mensageiro tinha coragem de atravessar o pântano e muito menos de falar com o feiticeiro. O pior, é que nenhum mensageiro contava ao rei que o senhor que vive trancado na cabana assustadora nunca havia sido convidado para nenhuma festa.

O rei não sabia que um convite não era entregue, pensava que o feiticeiro nunca vinha as suas festas por que tinha muitos afazeres, não podia perder tempo com baboseiras tipo essas. Era um homem ocupado e muito importante para a aldeia.

Por sua vez, o feiticeiro que de muito ficar triste com essa história, já estava com raiva.
- Todo ano a mesma coisa. Eles celebram e não me convidam! Esse ano vai ser diferente. Vou fazer uma magia e eles não terão colheita!

O feiticeiro foi para a floresta, recolheu alguns cogumelos, aranhas, ervas, folhas, mosquitos, formigas e musgos. Pegou um grande galho de obá-obá[1] para usar como colher. Ele também pegou um coelho pela orelha e levou para prepará-lo.

Ao chegar em sua cabana, dourou uma cebola na manteiga e fez uma mistureba com aqueles ingredientes, jogou tudo no caldeirão e começou a temperar o coelho. O bicho seria servido cru mesmo, só o tempero ia à fogo.

Colocou tudo em uma bacia de barro e levou para o quintal. Naquele Sol quente o movimento foi rápido: na mesma hora um grande pássaro negro apareceu e devorou o coelho.

O pássaro alçou voo novamente e pousou em cima da cabana do rei. Lá ele pousou por vários dias, sete luas se passaram e o pássaro continuava lá, estático.

Um mensageiro foi até o rei com péssimas noticias:
        - Não teremos colheita este ano.
        - Como não?
- Os alimentos estão verdes ainda... A esta altura já deveriam estar maduros e nada. Não se modificam, não amadurecem, parece que serão verdes eternamente.

        Foi quando o Rei teve um estalo em seu pensamento:
- Será que isso tem relação com o pássaro negro no teto?
- Provavelmente sim, me parece que este é um pássaro amaldiçoado.
- Vamos matá-lo!

O rei mandou chamar todos os caçadores da tribo para matar o pássaro. Vieram homens fortes, com muitas flechas e muita disposição para enfrentar aquela maldição.

 Surgiu então um caçador com uma flecha só. Todos riram dele.
        - Como poderá matar com uma única flecha? – queria saber o Rei, antes de anunciar:
- Quem matar o pássaro negro vai ser o caçador mais importante da tribo! Sem ele voltaremos a ter comida e festa!

Os caçadores fizeram uma vila para tentar acertar o pássaro. Primeiro veio o caçador de 25 flechas e nenhuma acertou o alvo. Em segundo o caçador das 80 flechas e, mais uma vez, nenhuma acertou no pássaro amaldiçoado...

Em terceiro, o caçador das 150 flechas, a primeira de raspão, a segunda também, a terceira passou longe e assim todas as outras também fizeram. Nenhum caçador conseguia acertar o bicho. Estavam todos nervosos, ansiosos, desesperados, alucinados.

O caçador de uma flecha só se mantinha calmo e caminhava em direção a cabana do rei. Todos riram quando ele passava. Se tantos caçadores fracassaram, aquele parecia um bobo caminhando com uma única flecha na mão.

Ele parou em frente a cabana e olhou bem para aquele monte de penas em cima do telhado. Respirou fundo, concentrou e atirou a flecha certeira na testa do grande e amaldiçoado pássaro negro. Que desapareceu como fumaça.

Todos comemoram e iniciaram a festa mesmo sem os alimentos prontos. Foi tanta alegria que ninguém se lembrou de agradecer o caçador de uma flecha só.

Mas ele nem se importou com isso, já caminhava calmamente de volta pra sua cabana, quando o rei se aproximou e valou:
- Caçador não vai comemorar conosco?
- Não, senhor, vou para casa descansar.
- Estamos muito gratos! Como posso recompensá-lo? O que devemos fazer?

- A vida já é muito difícil para todos, devemos viver em harmonia, calmos e serenos.
Na hora o rei não entendeu, mas achou por melhor deixar o caçador descansar sozinho em sua cabana.

Muito tempo se passou até o Rei compreender: enquanto todos estavam nervosos e ansiosos não conseguiram solucionar o problema que os afligia. Com o lançar de uma única flecha, o caçador calmo e concentrado conseguiu alcançar a solução.



[1] Grande árvore de origem africana.

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