O amor vem da África
O respeito vem da mata
Contos inspirados nas tribos raízes da cultura brasileira
Leila
Miana
O caçador de uma flecha só
Era
uma tribo onde tudo se festejava. O rei adorava comemorar todos os bons
acontecimentos da região. Tudo era motivo de alegria. Mudou o ano? Festa!
Nasceu criança? Festa! Sacrificou um animal? Festa! Hora da colheita? Mais
festa!
Aliás,
a festa da Colheita era a mais importante e divertida de todas as festas
africanas. Era um dia especial, em que eles colhiam todos os alimentos que
iriam ser estocados até o ano seguinte. Era a consagração de um ano proveitoso
e a esperança desta continuidade...
A
Festa da Colheita era anunciada para a comunidade há apenas dois dias antes de
acontecer, pois os agricultores esperavam o momento certo para colher os
alimentos. Naquele tempo, naquela tribo, as verduras, legumes e frutas ficavam
no ponto certo de colher ao mesmo tempo, no mesmo dia. Que era o dia em que
anunciavam que poderia ter festa!
Enviavam
mensageiros a todos os cantos anunciando que o dia havia chegado! Eles iam até
as cabanas que ficavam próximas e nas distantes também, nas da beira do rio e
de dentro da floresta, nos altos dos morros e nas profundezas dos vales.
Iam
à cabana de todos os moradores, exceto de um, o feiticeiro que morava no
pântano. Todos morriam de medo do velho feiticeiro e sempre
arrumavam uma desculpa para passar longe da cabana daquele homem.
O
rei mandava avisar a todos moradores, TODOS, mas nenhum mensageiro tinha
coragem de atravessar o pântano e muito menos de falar com o feiticeiro. O pior,
é que nenhum mensageiro contava ao rei que o senhor que vive trancado na cabana
assustadora nunca havia sido convidado para nenhuma festa.
O
rei não sabia que um convite não era entregue, pensava que o feiticeiro nunca
vinha as suas festas por que tinha muitos afazeres, não podia perder tempo com
baboseiras tipo essas. Era um homem ocupado e muito importante para a aldeia.
Por
sua vez, o feiticeiro que de muito ficar triste com essa história, já estava
com raiva.
-
Todo ano a mesma coisa. Eles celebram e não me convidam! Esse ano vai ser diferente.
Vou fazer uma magia e eles não terão colheita!
O
feiticeiro foi para a floresta, recolheu alguns cogumelos, aranhas, ervas,
folhas, mosquitos, formigas e musgos. Pegou um grande galho de obá-obá[1] para usar como colher. Ele
também pegou um coelho pela orelha e levou para prepará-lo.
Ao
chegar em sua cabana, dourou uma cebola na manteiga e fez uma mistureba com
aqueles ingredientes, jogou tudo no caldeirão e começou a temperar o coelho. O
bicho seria servido cru mesmo, só o tempero ia à fogo.
Colocou
tudo em uma bacia de barro e levou para o quintal. Naquele Sol quente o
movimento foi rápido: na mesma hora um grande pássaro negro apareceu e devorou
o coelho.
O
pássaro alçou voo novamente e pousou em cima da cabana do rei. Lá ele pousou
por vários dias, sete luas se passaram e o pássaro continuava lá, estático.
Um
mensageiro foi até o rei com péssimas noticias:
- Não teremos colheita este ano.
- Como não?
- Os alimentos estão
verdes ainda... A esta altura já deveriam estar maduros e nada. Não se
modificam, não amadurecem, parece que serão verdes eternamente.
Foi quando o Rei teve um estalo em seu pensamento:
- Será que isso tem
relação com o pássaro negro no teto?
- Provavelmente sim, me
parece que este é um pássaro amaldiçoado.
- Vamos matá-lo!
O
rei mandou chamar todos os caçadores da tribo para matar o pássaro. Vieram
homens fortes, com muitas flechas e muita disposição para enfrentar aquela
maldição.
Surgiu então um caçador com uma flecha só.
Todos riram dele.
- Como poderá matar com uma única
flecha? – queria saber o Rei, antes de anunciar:
- Quem matar o pássaro
negro vai ser o caçador mais importante da tribo! Sem ele voltaremos a ter
comida e festa!
Os
caçadores fizeram uma vila para tentar acertar o pássaro. Primeiro veio o
caçador de 25 flechas e nenhuma acertou o alvo. Em segundo o caçador das 80
flechas e, mais uma vez, nenhuma acertou no pássaro amaldiçoado...
Em
terceiro, o caçador das 150 flechas, a primeira de raspão, a segunda também, a
terceira passou longe e assim todas as outras também fizeram. Nenhum caçador
conseguia acertar o bicho. Estavam todos nervosos, ansiosos, desesperados,
alucinados.
O
caçador de uma flecha só se mantinha calmo e caminhava em direção a cabana do
rei. Todos riram quando ele passava. Se tantos caçadores fracassaram, aquele
parecia um bobo caminhando com uma única flecha na mão.
Ele
parou em frente a cabana e olhou bem para aquele monte de penas em cima do
telhado. Respirou fundo, concentrou e atirou a flecha certeira na testa do
grande e amaldiçoado pássaro negro. Que desapareceu como fumaça.
Todos
comemoram e iniciaram a festa mesmo sem os alimentos prontos. Foi tanta alegria
que ninguém se lembrou de agradecer o caçador de uma flecha só.
Mas
ele nem se importou com isso, já caminhava calmamente de volta pra sua cabana,
quando o rei se aproximou e valou:
-
Caçador não vai comemorar conosco?
-
Não, senhor, vou para casa descansar.
-
Estamos muito gratos! Como posso recompensá-lo? O que devemos fazer?
- A vida já é muito
difícil para todos, devemos viver em harmonia, calmos e serenos.
Na
hora o rei não entendeu, mas achou por melhor deixar o caçador descansar
sozinho em sua cabana.
Muito
tempo se passou até o Rei compreender: enquanto todos estavam nervosos e
ansiosos não conseguiram solucionar o problema que os afligia. Com o lançar de
uma única flecha, o caçador calmo e concentrado conseguiu alcançar a solução.
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